Meninas com sobrepeso podem menstruar até 1 ano mais cedo, aponta estudo
Endocrinologista pediátrica explica a relação entre obesidade e puberdade precoce e alerta para impacto no desenvolvimento infantil
A puberdade precoce costuma ser associada à exposição a substâncias químicas presentes em plásticos e cosméticos. Embora os chamados disruptores endócrinos sejam objeto de estudo, a ciência já aponta um fator com evidência mais consistente: o excesso de peso na infância.
De acordo com a endocrinologista pediátrica Marília Barbosa, estudos recentes mostram que meninas com sobrepeso ou obesidade podem apresentar a primeira menstruação, chamada a menarca, significativamente mais cedo do que aquelas com peso adequado. “Hoje já sabemos que a obesidade tem um impacto direto na regulação hormonal. O tecido adiposo não é apenas um reservatório de gordura, ele também produz substâncias que interferem no eixo hormonal e podem antecipar o início da puberdade”, explica.
Uma revisão científica publicada na revista Endocrine Connections, ligada à Sociedade Europeia de Endocrinologia, analisou evidências recentes sobre a relação entre obesidade e puberdade e concluiu que o aumento da gordura corporal está associado à antecipação do início puberal, especialmente em meninas. Além disso, estudos observacionais com diferentes populações indicam que meninas com excesso de peso podem ter a menarca entre seis meses e um ano mais cedo do que aquelas com peso adequado para a idade e estatura.
Esse fenômeno ocorre porque o tecido adiposo influencia a produção de hormônios como a leptina, que atua como sinalizador energético para o organismo. Quando há excesso de gordura corporal, esse sinal pode ser interpretado pelo corpo como um indicativo de que já há “condições” para iniciar a puberdade. “A puberdade é um processo biológico altamente regulado, mas também sensível ao ambiente metabólico. Quando esse ambiente está alterado, o corpo pode antecipar etapas que deveriam acontecer mais tarde”, afirma a especialista.
Cenário preocupa
O avanço da puberdade precoce ocorre em paralelo ao aumento da obesidade infantil. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que mais de 39 milhões de crianças menores de cinco anos estavam com excesso de peso em 2022 no mundo.
No Brasil, o cenário segue a mesma tendência. Dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) indicam crescimento progressivo das taxas de excesso de peso em crianças e adolescentes, o que acende um alerta para consequências metabólicas cada vez mais precoces.
A antecipação da puberdade não é apenas uma questão cronológica. Ela pode trazer repercussões importantes para a saúde física e emocional. Entre os possíveis impactos estão menor tempo de crescimento e, consequentemente, redução da estatura final; maior risco de obesidade persistente na vida adulta; aumento do risco de síndrome metabólica; e desafios emocionais e sociais decorrentes da maturação precoce.
“A puberdade precoce não é só começar a menstruar antes. É um processo que pode impactar crescimento, metabolismo e até a forma como a criança se percebe no mundo”, encerra Marília.


