Ultraprocessados podem alterar relação dos jovens com fome e saciedade, aponta estudo

Endocrinologista pediátrica explica os impactos desse padrão alimentar

A fome deveria ser um dos principais sinais para determinar quando e quanto comer. Um estudo publicado no periódico científico Obesity, porém, encontrou evidências de que uma alimentação rica em alimentos ultraprocessados pode interferir nesse mecanismo em jovens, favorecendo o consumo de calorias mesmo na ausência de fome. O achado chama atenção para uma dimensão menos discutida da relação entre ultraprocessados, comportamento alimentar e obesidade.

Para a endocrinologista pediátrica Marília Barbosa, o resultado merece atenção porque ajuda a ampliar a discussão sobre alimentação e obesidade para além da simples contagem de calorias. “Quando falamos sobre alimentação de crianças e adolescentes, precisamos considerar também os mecanismos que regulam fome, saciedade, recompensa e comportamento alimentar. O tipo de alimento consumido pode participar dessa equação”, explica.

A pesquisa ganha relevância quando colocada diante do cenário alimentar dos adolescentes brasileiros. Uma análise dos dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017–2018 mostrou que os alimentos ultraprocessados forneciam, em média, 27% das calorias consumidas diariamente pelos adolescentes brasileiros. Entre aqueles com maior participação desses produtos na alimentação, a proporção chegava a 59,2%. O estudo também identificou que, quanto maior a presença de ultraprocessados na dieta, maior era a quantidade de calorias concentrada em cada grama de alimento e maior a participação de açúcares livres, enquanto o consumo de nutrientes importantes, como fibras e potássio, diminuía.

Dados mais recentes do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) reforçam a presença desses produtos na rotina das novas gerações. Segundo informações reunidas pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, com base nos registros do SISVAN de 2024, 79% das crianças de 2 a 4 anos, 84% das crianças de 5 a 9 anos e 81% dos adolescentes acompanhados pelo sistema consumiram alimentos ultraprocessados.

Na avaliação de Marília, a exposição frequente a produtos altamente palatáveis durante fases de desenvolvimento merece atenção justamente porque hábitos alimentares são construídos ao longo do tempo. “A adolescência é um período em que autonomia, ambiente social e escolhas alimentares começam a se combinar de uma maneira muito mais intensa. Se a alimentação cotidiana é dominada por produtos que favorecem o consumo rápido e são altamente palatáveis, precisamos olhar para o impacto desse padrão sobre a relação do jovem com a comida”, afirma.

A especialista ressalta que o problema não está em transformar a alimentação de crianças e adolescentes em uma lista rígida de proibições. A questão central é a frequência e o espaço que esses produtos ocupam na rotina. “Uma alimentação saudável precisa preservar variedade, qualidade nutricional e espaço para que a criança reconheça os próprios sinais de fome e saciedade. Quanto maior a presença de alimentos in natura ou minimamente processados, maior a oportunidade de construir esse repertório alimentar”, explica.

Outro ponto relevante é a velocidade com que muitos ultraprocessados podem ser consumidos. Produtos de alta palatabilidade, textura macia ou crocante e fácil acesso podem facilitar uma ingestão rápida, reduzindo o tempo necessário para que os sinais fisiológicos de saciedade participem da refeição.

Para a endocrinologista pediátrica, a discussão também precisa ser inserida no contexto mais amplo da prevenção da obesidade infantil e adolescente. “Quando cuidamos da alimentação durante a infância e a adolescência, estamos trabalhando com um período de formação de hábitos que pode repercutir por muitos anos. A prevenção não depende de uma dieta perfeita, mas de um ambiente alimentar que favoreça escolhas adequadas na maior parte do tempo”, conclui.

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