Nárcia Kelly lançará o livro ‘Cooperativismo na Essência’
O agro goiano na versão em que famílias vivem (bem) em 1 alqueire. Ex-prefeita que presidiu cooperativa aos 19 publica manual de sobrevivência da agricultura familiar, em que o sustento é tirado dos braços, do suor e da mente, não de incentivos.
O poeirão de légua e meia entre a sede do município e a colônia de microprodutores rurais não deve assustar quem for ao pré-lançamento do livro “Cooperativismo na essência” (Contato Comunicação), de Nárcia Kelly Alves da Silva. Dali, a Região do Cará, sai o diamante branco que mantém a fama de Bela Vista de Goiás, o polvilho, exportado para outros municípios e Estados. São 52 famílias, 300 e poucas pessoas, aliás, muitas pessoas, pois cada uma ali é múltipla.
A autora nasceu ali e ali permanece, ali morou durante os 16 anos em que teve mandatos de vereadora, viceprefeita e prefeita duas vezes. Ali ficou durante o tempo de faculdade de Direito, em Goiânia – 10km do poeirão ou lama, mais os 40 de asfalto, todo dia, ida e volta. Que amor é esse pela roça? “A resposta está na pergunta, é o amor”, recita Nárcia como se cantasse música sertaneja antes de um sorriso maior que a propriedade rural da família. Como os demais do Cará, os Alves e os Silva criaram a família num terreno de 1 alqueire, no máximo, tirando o local da casa e o terreiro, o restante plantado de mandioca. Não falta o de-comer, mas não sobra dinheiro. Conta no livro que o pai havia reservado uns troquinhos a cada venda de polvilho para colocar prótese dentária. Aí, a filha passou no vestibular. Pois seu Nárcio ficou banguela, mas garantiu a matrícula e as primeiras mensalidades.
Como sempre e como todos no Cará, nada de ficar esperando incentivo de governo, tudo sai da mente e dos braços. Vêm da infância as lições de cooperativismo. Recebeuas de Nárcio e Suely, a mãe, levada pela Covid quando mais se sentia realizada, venNárcia Kelly visita Seu Adão, personagem de seu livro, em Roselândia, distrito de Bela Vista do a filha prefeita e o sucesso da Cooperabs, a Cooperativa de Polvilho do Cará (o abs é de Antônio Batista da Silva, o Vô Tõe, bisavô de Nárcia, que aos 19 anos foi a 1ª presidente da cooperativa). Depois de fundada, em 2005, a primeira obra foi uma escola de alfabetização, inclusive dos adultos. Vô Tõe e sua mulher, Etelvina, incutiram nos herdeiros, vizinhos entre eles, que fora da Educação nada existe.
O livro é um manual de cooperativismo, mas o leitor precisa ir ao Cará. Ali está um celeiro de empreendedores. E a fama ganha sotaques. Nárcia, que atualmente, preside a empresa que na prática é a Secretaria de Turismo de Goiânia, levou à França a experiência da chamada “cooperativa cerebral”. Foi aplaudida na Universidade Sorbonne, onde estudaram de Marie Curie a Ronaldo Caiado. O que pensava naquele momento? “Lembrava do Cará e da fé simples da minha família: confiar, plantar e esperar o tempo certo da colheita” – está na página 83 do livro.
Se você não tem o privilégio do Seu Adão nem vai ao Cará nesta manhã, espere que vem aí o lançamento em Goiânia, dia 26/11, às 18h na sede da OCB (Espaço Sescoop), ao lado do shopping Flamboyant (Rua 14 com Av. H, nº 550, Jardim Goiás). Meu conselho: vamos encarar os 9km de poeira e chegar à próxima quarta-feira com o manual já lido e pronto para agir em conjunto com os amigos.
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FONTE: Nilson Gomes, do Jornal O HOJE.


