Terreiro abre seus portões em festejo gratuito no sábado 1/8
Festejo de Candomblé celebra rito ancestral e a tradição cultural da luta identitária dos povos do terreiro
O terreiro Ilê Asè Omi Gbato Jegede, em Águas Lindas, abre seus portões para desmistificar o Candomblé e a sua luta histórica de resistência quase silenciada pela branquitude
Um terreiro de candomblé em Águas Lindas de Goiás vai abrir suas portas para uma imersão cultural da comunidade com festejo gratuito que une gastronomia e tradições ancestrais herdadas dos povos africanos. Trata-se da festa Yawô: Caminhos para a Ancestralidade, que dia 01 de agosto, sábado, às 21 horas, vai movimentar a casa de axé Ilê Asè Omi Gbato Jegede.
O evento é fruto de um projeto contemplado pelo Fundo de Arte e Cultura de Goiás e Secult (Secretaria de Estado da Cultura do Governo de Goiás). Realizada pelos artistas Henrique Cortes e Daniela Braga, a celebração principal será noturna, mas terá uma oficina de arte prévia, que será ministrada no dia da festa, 01 de agosto, das 10 às 11 horas, atividade que será aberta ao público em geral.
Daniela Braga, artista visual e arquiteta doutoranda pela Unb (Universidade de Brasília), explica que o objetivo é mostrar ao público, jovem-adulto, por meio de vivência artística, uma melhor compreensão das simbologias presentes nas festas tradicionais e da luta identitária das religiões de matrizes afro-indígenas ao logo dos séculos contra as tentativas de apagamento pelo povo cristão.
Na oficina serão utilizados materiais base como imagens, telas – pintadas por Daniela Braga – e textos sobre o candomblé. A atividade incentivará criações de arte visual em torno de símbolos e processos que fazem parte da iniciação de um Yawô (iaô), termo de origem iorubá que dá nome à festa e significa o recomeço e a resistência do candomblé.
Candomblé e o rito Yawô – Em religiões de matriz africana, no candomblé a saída de Yawô é um rito que marca a iniciação formal no terreiro, em que a pessoa deixa de ser abiã, aquele que ainda está conhecendo e aprendendo sobre a casa de axé, e assume o compromisso com o seu Orixá. Depois de cumprir algumas obrigações ao longo de sete anos, o yawô se torna um Egbomi, “irmão mais velho”, que passa a ter mais responsabilidades internas na casa.
O projeto Yawo visa mostrar para a sociedade que o Yawô significa o renascimento e a resistência do candomblé e como isso é essencial. O público vivencia a importância dessa simbologia do renascimento da pessoa dentro do culto do candomblé. Durante a festa a comunidade verá o rito Yawô, que é um sinal de resistência de um legado cultural. O Yawô é renovação da fé, é quando as pessoas se renovam e se fortalecem.
Henrique Cortes explica que esse “nascer de novo” ocorre no dia 01, após 21 dias de rituais em recolhimento espiritual, numa demonstração de que mais uma pessoa nasce para o axé. “O Yawo é uma demonstração de que a religião não acabou e que a fé e resistência têm de caminhar em primeiro lugar para que possamos continuar fortalecidos pelo legado do candomblé”.
Ele exemplifica valores cultivados no candomblé essenciais no mundo de hoje: ações como a preservação da natureza, o respeito ao idoso e à mulher, priorizar a coletividade no lugar da individualidade, propagar a tolerância e diversidade, encarar a visualização da morte como início de um novo ciclo e valorizar os saberes ancestrais e o sistema matriarcal como um caminho para uma sociedade mais justa e inclusiva.
Henrique Cortes, 33 anos, iniciou-se no candomblé há uma década. Além de ser babalorixá (pai de santo), e ter atuado como arquiteto, consolidou a sua carreira como estilista. Ele assina todos os looks da celebração e tem a grife autoral @ojuodara.atelie, que fornece roupas para casas de axé de todo o Brasil e do exterior.
A casa de axé Ilê Asé Gbato foi fundada em 1992, na época do surgimento de Águas Lindas e contribuiu para o fortalecimento de laços identitários de moradores. A região povoada, em sua maioria, por trabalhadores de Brasília, é uma localidade que ficou conhecida no Brasil pela população carente e os altos índices de violência.
A indumentária promete ser uma atração de destaque da festa Yawô: Caminhos para a Ancestralidade. Os visitantes vão conferir um rito marcado ainda por roupas elaboradas em tecidos africanos, modelagem ampla e detalhadas por sianinha, passa fita e entre meio. Ele explica que abrir para a comunidade esses ritos e festejos de origem africana é uma forma de perpetuar a a nossa cultura e lutar contra o racismo religioso/ cultural.
Luta contra o preconceito e a invisibilidade – Henrique Cortes ressalta: “Nossa festa é uma oportunidade valiosa para combater o preconceito de que o terreiro é sinônimo de “macumba com galinha e vela preta”, algo propagado pelo cristianismo que gera a invisibilidade e o apagamento da expressão de cultos fora das classes dominantes”.
Ele lembra que nossa constituição da República garante liberdade de crença e de reunião e, ainda, que o Brasil é consolidado como um estado laico. “Ao abrir suas celebrações, os terreiros, ou seja, as casas de axé, querem promover um diálogo com a comunidade externa para evitar o apagamento cultural do legado do candomblé e reforçar, de uma forma pedagógica, que todas as religiões merecem ser respeitadas, compreendidas e protegidas”, conclui.
Segundo os realizadores do evento, essa festa vai muito além de religiosidade e espiritualidade, porque os festejos do Yawô são uma oportunidade rica de uma experiência visual e sensorial na qual o convidado pode livrar-se de pré-julgamentos por meio de vivências reais em nosso terreiro. A expectativa é que os visitantes possam conhecer de perto um festival que une movimento, dança, cores, crenças e sabores que normalmente o grande público tem acesso apenas por meio de visitas a países africanos ou manifestações alusivas à cultura dos nossos ancestrais.
Eles reforçam que a casa de santo anfitriã abre seu cotidiano e sua bagagem cultural para mostrar para as novas gerações que os envolvidos, iniciados ou não nas religiões de matriz africana e indígena, devem ser uma grande família focada na sua missão no mundo terreno e na preservação do patrimônio imaterial da sociedade.
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Festa: Yawô: Caminhos para a Ancestralidade
Data e horário: 01/08/2026 (sábado), às 21 horas
Local: Casa Ilê Asè Omi Gbato Jegede
Endereço: Avenida Mato Grosso, Quadra 16, Lotes 18/20, Bairro Jardim Guaíra, Águas Lindas (Goiás)
Entrada Franca


