Do tatersal à tela: leilões de gado ampliam alcance e conectam compradores de diferentes regiões do país
Digitalização acelerada a partir de 2020 mudou a comercialização de animais e permitiu que produtores participassem das negociações sem sair da propriedade
Comprar gado em um leilão já não exige necessariamente viajar centenas de quilômetros, acompanhar os animais presencialmente e disputar os lotes dentro de um tatersal. Uma transformação acelerada a partir de 2020 levou parte significativa das negociações para as telas e ampliou o alcance dos remates pecuários para compradores de diferentes regiões do Brasil.
Em Goiás, essa mudança acontece dentro de um dos principais mercados pecuários do país. Dados da Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM), do IBGE, mostram que o estado possuía 23,2 milhões de bovinos em 2024, diante de um rebanho nacional de 238,2 milhões de cabeças.
Para Guilherme Scatena Neto, proprietário da 3M Leilões, a pandemia representou um divisor de águas para um processo de digitalização que acabou permanecendo mesmo depois da retomada dos eventos presenciais.
“A partir de 2020 houve uma mudança muito grande. Antes, a comercialização estava muito concentrada nos leilões de recinto, com compradores e animais presentes. Quando isso deixou de ser possível, o mercado precisou experimentar o virtual e o produtor percebeu que conseguia comprar de dentro da própria fazenda ou de casa”, explica.
A mudança também ajudou a diminuir uma barreira geográfica histórica. Com transmissão dos remates e informações sobre os lotes disponibilizadas previamente, um produtor pode acompanhar animais ofertados em outra região e realizar os lances à distância.
Segundo Guilherme, esse modelo funciona especialmente quando existe confiança nas informações apresentadas pela leiloeira.
“O comprador precisa saber o peso, a raça e as condições dos animais e confiar que aquilo que está vendo representa realmente o lote que vai receber. Quando existe essa credibilidade, ele consegue fazer os lances de onde estiver, acertar a compra posteriormente e organizar a retirada dos animais”, afirma.
A logística também mudou para quem vende. Em muitos leilões virtuais, os animais permanecem na propriedade até a conclusão da negociação. Com isso, deixam de passar pelo deslocamento até o recinto antes da venda e, posteriormente, por uma nova viagem até a fazenda compradora.
“O gado pode sair diretamente da fazenda do vendedor para a propriedade de quem comprou. Antes, o animal podia viajar até o recinto, permanecer lá durante o leilão e, se não fosse vendido, ainda retornar para a propriedade. Além do custo, existe a questão do estresse do animal. O virtual trouxe uma facilidade também para quem está vendendo”, explica Scatena.
Na avaliação do leiloeiro, a praticidade fez com que o formato virtual permanecesse forte mesmo após o período mais crítico da pandemia. O presencial, entretanto, continua tendo espaço, principalmente nos remates promovidos por criadores e fazendas que trabalham com genética.
“Os leilões de produção continuam tendo uma força presencial importante. São criadores que querem apresentar o trabalho realizado dentro da fazenda, mostrar sua genética e manter o relacionamento com compradores. Também existem cidades em que o leilão semanal continua sendo uma tradição. O virtual cresceu muito, mas existem situações em que o encontro presencial continua fazendo sentido”, observa.
A tecnologia, portanto, não eliminou o tatersal, mas ampliou as possibilidades de comercialização. Um mesmo evento pode alcançar compradores que dificilmente se deslocariam para acompanhar um remate presencial, enquanto encontros tradicionais continuam funcionando como espaços de relacionamento entre produtores.
Para Guilherme, essa combinação tende a definir os próximos anos do setor.
“O produtor experimentou a facilidade de acompanhar e comprar à distância e dificilmente vai abrir mão disso. O desafio agora é melhorar cada vez mais a qualidade das informações, das imagens e das transmissões, porque quanto mais segurança o comprador tiver para avaliar um lote sem estar fisicamente diante dele, maior pode ser o alcance daquele leilão”, conclui.
@3mleiloes


