Treino de força e crescimento infantil: aliados contra o sedentarismo

Endocrinologista pediátrica esclarece mitos e apresenta evidências científicas sobre atividade física na infância. Tema ainda causa dúvidas. Afinal, pode ou não?

A ideia de que musculação ou treino de força “travam o crescimento” ainda circula entre muitos pais. No entanto, evidências científicas mostram que, quando bem orientado, o treinamento resistido é seguro para crianças e adolescentes e não interfere no crescimento linear.

Segundo a endocrinologista pediátrica Marília Barbosa, o receio costuma estar associado ao medo de lesão nas cartilagens de crescimento, estruturas responsáveis pelo alongamento dos ossos durante a infância e adolescência. “O que a ciência demonstra é que o problema não é o treino de força em si, mas a ausência de supervisão adequada ou o uso incorreto de cargas. Quando há orientação profissional, o treino pode ser feito com segurança”, explica.

Um dos documentos mais citados sobre o tema é o Position Stand da National Strength and Conditioning Association (NSCA), organização que é autoridade mundial em treinamento de força e condicionamento físico. O documento afirma que não há evidência científica de que o treinamento de força supervisionado prejudique o crescimento linear de crianças e adolescentes. Pelo contrário, os estudos analisados indicam que jovens podem apresentar ganhos de força entre 30% e 50% após 8 a 12 semanas de treinamento estruturado, sem impacto negativo na estatura ou na maturação óssea.

A Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics – AAP) também reconhece que o treino de força pode ser seguro na infância e adolescência quando supervisionado por profissionais qualificados e adaptado à fase de desenvolvimento da criança. “O treino para crianças não tem como objetivo hipertrofia estética. Ele trabalha coordenação, controle motor, fortalecimento muscular e saúde óssea. É diferente do modelo adulto de musculação”, destaca Marília.

Sedentarismo preocupa mais que o treino

Se o medo da musculação ainda persiste, o sedentarismo já é uma realidade preocupante. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que cerca de 81% dos adolescentes entre 11 e 17 anos no mundo não atingem os níveis recomendados de atividade física, o que piora quando os dados são associados ao aumento do tempo de tela e à redução de brincadeiras ao ar livre.

Para a endocrinologista, o debate precisa mudar de foco. “A grande questão de saúde pública hoje não é o excesso de exercício, e sim a falta dele. A inatividade física está relacionada ao aumento de obesidade infantil, resistência à insulina e alterações metabólicas cada vez mais precoces”, afirma.

A recomendação não é que toda criança vá para a academia, mas que a atividade física faça parte da rotina. O treino de força pode ser realizado com peso corporal, elásticos, exercícios funcionais e outras estratégias adaptadas à idade. “O importante é respeitar a maturação biológica, começar com técnica adequada e progressão gradual. O acompanhamento profissional é essencial”, reforça a médica.

Para pais que ainda têm receio, a orientação é buscar avaliação com o pediatra ou endocrinologista pediátrico antes de iniciar qualquer programa estruturado. “Crescimento é um processo fisiológico complexo e altamente regulado pelo próprio organismo. O treino de força, quando bem conduzido, não interrompe esse processo. Pelo contrário, pode contribuir para o desenvolvimento saudável”, conclui.

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